terça-feira, 24 de novembro de 2009

sim, eu concordo com a Veja



Era o que me faltava. Digam o que quiserem da Revista Veja, mas a matéria de Marcelo Marthe desta semana está correta do começo ao fim. Na reportagem, ele fala sobre a nova polêmica de 'Viver a Vida': o tapa na cara de Helena (Taís Araujo) dado por Tereza (Lilia Cabral). E diz em sua linha fina: "A humilhação de Taís Araújo faz com que Viver a Vida finalmente dê o que falar. Já tem até militante do movimento negro dizendo besteira". Pode parecer reacionário. Não, não é. Segue a matéria abaixo, na íntegra.

Na última segunda-feira, a novela Viver a Vida exibiu o que não havia exibido até aqui: cenas que o público comentou e comentou de novo nos dias seguintes. Acossada em sua própria casa por Tereza (Lilia Cabral), a mocinha Helena (Taís Araújo) suportou calada a acusação de que seria culpada pelo acidente automobilístico que deixou a filha da megera, Luciana (Alinne Moraes), tetraplégica. Empapada em lágrimas (e, à falta de um lenço, limpando compulsivamente o nariz com as mãos), Helena então caiu de joelhos para suplicar perdão. Tereza não deixou barato. Aplicou-lhe uma sonora bofetada, mas sem perder a fleuma: enquanto batia com uma mão, mantinha a outra elegantemente enfiada no bolso do terninho.
No mesmo capítulo, Luciana sacudiu-se toda na cama do hospital ao ser informada pelos médicos de que estava incapacitada de se movimentar (quanto mais se sacudir) do pescoço para baixo. Para conjugar lágrimas com sangue, a cirurgia de reconstituição de sua coluna foi mostrada sem economia nos detalhes clínicos. Embora a audiência ainda esteja fraca, essas sequências "fortes" finalmente transformaram Viver a Vida em tema de discussão. Provocaram até reações dos chatos de sempre: as vertentes paranoicas do movimento negro ouviram ecos escravistas na humilhação de Helena por uma branca. As cenas também causaram comoção nos bastidores. Atores e técnicos se debulharam em lágrimas nas gravações do drama de Luciana. Após a cena do tabefe, o pessoal no estúdio aplaudiu. "A Taís chorou todo aquele volume de lágrimas de verdade, tadinha", diz Lilia Cabral. "Ela é emoção pura."

O episódio de segunda-feira marca uma guinada e tanto da personagem de Taís Araújo. Na primeira fase da novela, Helena era uma modelo altiva e segura de si. Mas sondagens feitas pela Globo demonstraram o óbvio: a protagonista não despertava simpatia. Ao contrário, passava a imagem de garota superficial e arrogante (na direção da emissora, há quem acredite que o problema esteja na inadequação da própria atriz: alguns acham que a colega Camila Pitanga funcionaria melhor). Espera-se que o sofrimento e a humilhação pelos quais está passando (já previstos na sinopse, ressalve-se) revertam a aura de antipatia. Trata-se de um caminho bem diferente do habitual para resgatar heroínas problemáticas. Tem sido mais costumeiro que elas não empolguem o público por serem boazinhas demais, no limiar da tontice. Para redimi-las diante do público, a receita é uma só: a mocinha tem de aplicar surras homéricas na vilã. Foi o caso de Maria Clara, a patetona vivida por Malu Mader em Celebridade, de 2003, que superou a chatice esbofeteando a rival Laura (Cláudia Abreu). No caso de Helena, deu-se o contrário: precisou apanhar de uma megera para virar gente.

A humilhação de Helena ainda não surtiu nenhum efeito visível no ibope. Naquela noite, a audiência de Viver a Vida permaneceu nos mesmos 37 pontos que a trama das 8 já vinha alcançando na Grande São Paulo. Na quarta-feira, quando um número excepcionalmente baixo de televisores ligados prejudicou a audiência das redes em geral, despencou para 31 pontos - índice muito aquém do mínimo de 40 pontos esperados pela emissora para o horário. Se a escalada dramática não repercutiu na audiência, pelo menos deu combustível para o humor. A personagem de Alinne Moraes, que emergiu de um acidente violento com a maquiagem impecável e um band-aid na bochecha, deu mote para as melhores piadas. O colunista José Simão, da Folha de S.Paulo, comparou os lábios da atriz a um "bico de tênis Conga". E há quem diga que sua boca finalmente se livrou do resto do corpo para brilhar sozinha. A paródia do Casseta & Planeta foi mais cruel com a personagem deficiente do que com a atriz: uma das piadas do programa, na semana passada, afirmava que Luciana sairá do hospital "com um pé nas costas". A crueldade, aliás, ganha voz na própria novela, com a viborazinha Isabel (Adriana Birolli) - cujo primeiro impulso ao saber dos impedimentos físicos da irmã mais velha foi o de se apossar da barra de balé que Luciana tinha no quarto.

Heroínas de novela foram feitas para sofrer desbragadamente. Comparadas à agonia de Alinne Moraes, que agora só pode mexer o bocão e os olhos verdes, as chorosas tribulações de Taís Araújo são fichinha. Mas os patrulheiros da ideologia racial nada entendem de drama televisivo. No site da CUT, Maria Júlia Nogueira, secretária da central sindical pelega, tascou sua sentença: "A Globo humilha os negros no mês da consciência negra". A escalação de Taís para protagonista de uma novela das 8 - e o fato de sua personagem ser uma mulher de sucesso sem ter de levantar bandeiras - prova exatamente o contrário.

irmã da vida


Hoje é dia dessa loirassa aí ao meu lado. É com ela que eu passo aqueles momentos bem cafonas de ligar um Zezé di Camargo ou um Caetano no último e cantar para quem quiser ouvir. E se não gostar que feche o vidro. A gente é folgado assim mesmo, malucos. Gostamos de um mundo divertido, nada sem graça e com muita cerveja - aquela né rê, bem branquinha. Aliás, num dia como esse só podia ter chuva, suor e cerveja. Foi por isso que os deuses promoveram nosso encontro. Porque somos intempestivos como uma chuva de 3 da tarde, sempre atrás daquele nosso raio de sol, escondido em algum lugar por aí. E a cerveja? Bom, essa é a única que a gente tem certeza de estar sempre ali. Hoje é dia de Renata Megale. E de um pequeno coração bater mais forte, só pra ela.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

imperdível

depois da série 'kill bill' (que não, eu não sou fã), quentin tarantino retorna com 'bastardos inglórios', um filme simplesmente espetacular. falo isso com atraso, eu sei. mas quem ainda não viu, não deixe de ver. na telona!

sir sting

depois do show do the killers passei o domingo pensando se eu ia me enfiar no kit-roubada-chácara-do-jockey outra vez. ou se optava pelo monumento joss stone (aí é covardia...) no hsbc brasil. cogitei não ir em nenhum. mas a profissão falou mais alto... e venceu a preguiça. ok, vamos ver sting. valeu a pena. o cara é um puta músico - é completo. a chuva, ao fim do jason mraz, fez pensar o quanto tudo teria valido a pena. por volta das 22h30, na reta final para encerrar o show, já depois de 1h30, veio a certeza de que veteranos do rock geralmente obtêm tal título pq honram suas medalhas.

domingo, 22 de novembro de 2009

puta encontro

achei esse outro vídeo. muito foda: a menina (e poderosa) joss stone ao lado de ninguém menos que o rei do funk, james brown. fodido!

pés descalços

domingueira de pés descalços no palco. na chácara do jockey, jason mraz entoa o hit (chiclete) pop 'i'm yours'. mas vale mesmo sair de casa para ir até o hsbc brasil ver o monumento joss stone, em lançamento de 'color me free'. o vídeo acima é uma das boas pérolas do disco.

sábado, 21 de novembro de 2009

faces do (bom) exagero



Recentemente tive a oportunidade de entrevistar Ney Matogrosso ao vivo, no estúdio do SBT, minutos antes de entrar para gravar o Programa da Hebe. Ney falou sobre o novo disco, 'Beijo Bandido', simulou a sedutora interpretação de 'Nada Por Mim' apoiado em um banquinho, mas lembrou que o atual trabalho nada tem a ver com um momento autobiográfico, com uma paixão pessoal. "É romântico, mas nada melancólico", disse. E ele ainda ama? "Claro, não estou morto, tenho testosterona ainda". Emendo que certo dia falei com Erasmo Carlos e ele me admitiu ter saudades da parte física obecer de imediato o que a mental quer. Ney faz cara de sarcasmo, de gracejo. E diz: "Ah, a minha obedece".
O homem que revolucionou a arte com Secos e Molhados diz que o frenesi feminino o acalenta. Confessa que teve medo de ser rejeitado. "Achava que as mulheres fossem me achar uma coisa esquisita. E é claro que não queria isso, não queria ser rejeitado". Ele pede uma pausa para fazer um trabalho de 'desentupimento'. "Tenho um desvio de septo, sou todo entupido". Entra no banheiro com um remédio e produz sons, bem, não muito agradáveis.
Retoma a entrevista. Chego ao seu ponto C, de Cazuza. Questiono se incomoda esse diz-que-me-diz em torna dessa relação. "Sim. Não falo mais sobre isso. Nem sobre Cazuza, nem sobre Secos e Molhados". E por que? "Porque a entrevista vira só aquilo". Lembro que uma última entrevista que abordava bastante isso havia sido publicada na Folha de S. Paulo, na coluna da Mônica Bergamo. Ele diz que foi a partir de então que decidiu encerrar o assunto. "Porque se não toda a entrevista vira só isso. Fica parecendo que eu quero me promover em cima do Cazuza".
Aproveito para retomar as recentes declarações de Caetano Veloso ao Estado de S. Paulo, na Sonia Racy. Ele faz cara de reprovação. Pergunto se é um erro da imprensa buscar personalidades para falar sobre tudo, como se Caetano fosse um expert em todos os temas. Ney concorda. "Um dia me ligaram para repercutir a separação do Chico (Buarque) com a Marieta (Severo). O cara me pergunta o que eu achava disso. Disse que não achava nada, que eles eram maiores de idade e sabiam o que fazer das tuas vidas. O cara ainda ficou puto. E o que eu tenho a ver com isso?".
Ainda assim ele se manifesta sobre política "como um brasileiro que acompanha essa pouca vergonha". "Acho bom a entrada da Marina (Silva, do PV) para balançar o coreto da outra (Dilma Roussef, pré-candidata do PT). O presidente não pode achar que temos de seguir o que ele fala ou quer".

Rubrica
Reproduzi esse encontro, parcialmente publicado no Guia do Estado da semana passada (13/11), porque estava revendo o 'Por Toda a Minha Vida', exibido na última quinta na TV Globo, que falou de Cazuza. Ney aparece no programa. Dá seu depoimento. E diz que Cazuza foi muito mais do que sexo - foi um amor. Ano que vem faz 20 anos que Cazuza morreu e que a música ficou um pouco mais sem graça, careta, medrosa. Poucos falaram de amor e de política como esse eterno exagerado. Ainda bem que temos Ney Matogrosso. Um outro igualmente exagerado: um veneno antimonotonia.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Um feliz encontro de ausências




Tema incômodo, peça imperdível
Hamelin, sobre pedofilia, com o galã Vladimir Brichta, é a grata surpresa da atual temporada paulistana


"Um dia minha filha chegou com uma mordida no braço. Perguntei o que era. Ela disse que tinha sido a babá. Mas a babá me deu outra versão. Fiquei em conflito, mas, ainda que minha filha estivesse mentindo, afasteia moça do serviço." O relato do ator Vladimir Brichta ao repórter do Estado ocorre em cima do palco, momentos antes de protagonizar Hamelin, em cartaz até o dia 29 no CCBB. Com um caso real, expõe uma das essências do drama policial que protagoniza há um mês: a possível dissimulação infantil.

O texto do espanhol Juan Mayorga, adaptada por André Paes Leme, centra a história num suposto caso de pedofilia que envolve um figurão da cidade (Alexandre Mello). Vladimir é Monteiro, o juiz que busca incriminar o sujeito. Mas ele tem apenas imagens coletadas do computador do acusado, além do depoimento do irmão mais velho da "vítima". O juiz vai ouvir então a criança. Pergunta três vezes, até extrair a afirmação de que o homem o tocava durante o banho, nos fins de semana em seu sítio. "Mas ele insiste na pergunta para conseguir a verdade ou para forjar a mentira?," provoca Vladimir. "Em Hamelin, nada é conclusivo", emenda. Ao que o diretor intervém: "A conclusão é fácil, difícil é viver com a dúvida."

De fato, cabe ao espectador entender as dúvidas e os conflitos sugeridos em cena. Mayorga impõe rubricas levadas por meio de um comentarista. André Paes Leme ampliou a situação: todos os seis atores, com exceção de Vladimir, se revezam nos comentários, numa dinâmica pontual. Eles funcionam como ilustradores de cena, em perfeita sincronia. E intrigam, em situações como, por exemplo, a em que Monteiro se encontra com a psicóloga (Patrícia Simões) e não responde à mão estendida. Entra o comentário: "Monteiro ignora a mão estendida, ou finge que não vê. E a cumprimenta com um beijo." Monteiro não viu ou preferiu o contato mais íntimo? Quem forma (ou deforma a linguagem) é o espectador. "Ele é manipulado, como a sociedade nos manipula", pontua André.

PREENCHIMENTO DO VAZIO

Não há praticamente recursos cênicos em Hamelin. Apenas uma mesa, luminárias (que os atores acendem e desligam) e um "cantinho" do café. Também não há figurinos. "Me entedia a sensação de maquiagem. Meu trabalho é na essência dos atores", diz o diretor. O elenco se reveza em mais de um papel, como Oscar Saraiva, que atua como a criança abusada e o pai da mesma. Assim, em momento algum o encontro entre o pai e o filho se realiza.

Em 90 minutos, a trama se espalha para outros temas. É um dedo em riste em questões da sociedade e da família, que envolve o julgamento alheio, a manipulação e precipitação da imprensa (lembra o caso da Escola Base?) e o vazio entre a relação de pai e filho. Monteiro, veja só, busca a todo custo defender a criança do pedófilo, mas é impotente com a rebeldia da sua própria cria. Um dia, depois do trabalho, sua mulher conta ter sido agredida pelo filho. Ela apela para que Monteiro tente contornar a dramática situação. Ele nada faz.

São ações (e perguntas) como essas ou outras, a princípio ingênuas, como "Alguém quer carona para a missa?", que incomodam o espectador. "Imagina como deve ser para um pai ausente ver aquela relação do Monteiro com o filho. Ou pior: para um adulto, que por acaso goste de criança, se ver naquela situação?", indaga Vladimir. E conflitante é também - para qualquer um - quando Monteiro coloca o "pedófilo" contra a parede e ouve como resposta (ou defesa) para o seu sentimento: "Pode ser que eu goste de crianças, mas eu controlo meu desejo". E é possível condenar alguém por ter desejos?

LIGAÇÕES DO DESTINO

Foram momentos de ausência de André e Vladimir que resultaram neste feliz encontro. André, que já havia trabalhado com Vladimir duas vezes (A Hora e a Vez de Augusto Matraga e Um Pelo Outro), teve o texto apresentado pela sua mulher Patrícia Simões (a psicóloga na peça). Estava atrás de alguém que pudesse fazer o protagonista. Cogitou que devia ser um ator mais velho. Vladimir, que acabara de fazer um blockbuster, o musical Os Produtores, buscava um texto em que conseguisse aprofundar o papel de ator. Algo forte, que exigisse entrega. "Ligava para todo mundo que estava montando algo", conta. Até que um dia atendeu uma ligação de André. "Ele falou sobre a peça e pediu indicações. Até sugeri alguns. Mas quando li, pensei, "sou eu"". E por quê? "Sou pai desde os 21, e a peça fala sobre educação e família; sobre falhas e ausências."

Se Vladimir encontrou o que queria? "Sem dúvida", diz, sob o olhar cúmplice do diretor. "Estou me agradando", completa, com sorriso entrecortado. Não é uma tarefa fácil. "Às vezes, dá vontade de chorar, de ver o quanto a gente é incapaz", diz Vladimir. Para André, "teatro não é só para rir": "É uma contribuição que faço à sociedade". Contratado da TV Globo, o ator sabe que deve ser escalado para algum projeto em 2010. Mas quer aproveitar o palco. "Hamelin é um jogo de cena contemporâneo que retoma o instrumento mais antigo do teatro: o poder da palavra." Para Vladimir, a peça merece ser levada a "pontos inimagináveis do País". Já tem garantida passagem por Fortaleza e temporada no Rio. "É meu espetáculo mais necessário", corresponde o diretor. A rasgação pode soar clichê. Ao vivo, faz todo sentido.

Em tempo, André já rascunha novo projeto, idealizado antes até de Hamelin. O tema? A história real de uma menina que acusou o pai de abuso sexual, mas tentou voltar atrás, sem sucesso, quando ele já havia sido condenado. Vem (outra) provocação das boas por aí.

* publicado originalmente no Caderno 2, do Estado de SP, do dia 18/11/2009

sábado, 31 de outubro de 2009

direto da mostra

o longa 'bollywood dreams - o sonho bollywoodiano', de beatriz seigner, com nataly cabanas, paula braun e lorena lobato, está na final do troféu bandeira paulista da mostra de cinema.

trilha de um sábado de sol

domingo, 25 de outubro de 2009

cabeças amarelas


Lembro-me da primeira vez que tive contato com os trabalhos dos irmãos gêmeos, Otávio e Gustavo Pandolfo. Foi com a Dri e a Bonelli, numa tarde de sábado. Eles estavam com uma individual na Fortes Vilaça. Gostei daquelas cabeças amarelas e achatadas de imediato. De volta à cidade, além das intervenções urbanas que a prefeitura não apagou, eles inauguraram ontem 'Vertigem', no Museu da Faap. E mostram que a marca osgemeos não cansa de se renovar. Ou será que é preciso renovar? Ainda que se atualizem, as características fundamentais do seu trabalho permanecem. Ao som de Siba na abertura, ficava ainda mais claro o quão Brasil e regional são seus trabalhos. Mas a viagem desses irmãos também é urbana, como mostra a foto acima, um dos trabalhos expostos. Um trabalho de respeito.

um dia de Tremendão

Em casa, ouvia na minha infância muito mais 'Festa de Arromba' do que 'Emoções'. O Tremendão Erasmo Carlos estava, de alguma forma, à frente do Rei Roberto Carlos. Criei na minha cabeça que Erasmo era muito mais familiar que o Roberto. O jeito riponga, debochado, meio cafajeste me parecia mais autêntico (e interessante) que os ternos brancos (ou azuis) daquele que embalou todos os Natais da família. Eu vislumbrava em Erasmo uma figura paternal.
Há duas semanas me encontrei com Erasmo. E desde o instante que pensei na possibilidade de vê-lo ao vivo me lembrava dele. Das fotos com as calças boca de sino, o cabelo desgrenhado, o óculos meio John Lennon. Um hippie parado no tempo. Estar de frente com Erasmo era ir de encontro ao passado. Uma sensação de viver com ele os anos 60 e 70...
Aos 68 anos, Erasmo fuma um cigarro atrás do outro. Me pergunta se me incomodo. Digo que não. "Essa cidade está ficando um porre com esse monte de lei", falo, numa expectativa de quebrar o clima. E ele me diz que "é bicho, está complicado". E mais uma vez penso que "caceta, é ele".
Conversamos sobre sua volta às guitarras e as diferenças com Roberto. No ano em que só se falaram dos 50 anos do capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, ele lembra que "curioso como tanta gente dessa cidade cruzou meu caminho". Diz que os seus 50 anos serão comemorados no ano que vem. Comemorados como? "Não sei. Eu não tenho que comemorar nada. Vou esperar me chamarem. O Roberto não fez nada, quem fez foi o Itaú".
Erasmo recorre invariavelmente ao assistente que o acompanha há tantos anos na turnê sempre que sente que falou algo bonito, que poderá ser utilizado outrora. É uma piada interna. "Anota aí", ele diz umas quatro vezes. Debochado, como ele... Acha interessante quando diz que "o tesão no palco é como uma mulher nova". "Anota aí", repete.
O Tremendão aponta o dedo na cara da geração mais nova. Diz que "hoje ninguém mais desafina" e que "a tecnologia prostituiu a emoção". Falta-lhes vivência, pondera. "Essa geração não canta o que sente ou o que viveu". Rebato que, portanto, hoje ele escreve melhor do que seus 20 e poucos anos. Acuado, solta apenas um "não sei". Mas reconhece que os trancos da vida lhe tiraram a tal ingenuidade. E não só. Diz que sente saudades da época em que a parte física e mental andavam em conjunto.
Lembrou de Raul, Tim Maia, Ben Jor, e, claro, o amigo de fé e irmão camarada, o Rei. Brinca que se juntassem todos eles estaria formado o Beatles brasileiro. E volta atrás, logo em seguida. "Não ia durar muito tempo. Ia ser um duelo daqueles...".
Eu agradeço a entrevista. Peço para registrar aquele momento. E lembro a ele que era um prazer entrevistá-lo. Era como se estivesse diante da figura que mais me lembra ele. Meu pai. E, de certa forma, estava.

pensamentos de luiza


"Mas às vezes um revés é apenas um revés. É comum ficarmos sem compensação nenhuma para um desastre, uma agressão, um erro, uma doença, o fim de um amor, a perda de uma pessoa amada. É uma questão de perspectiva, ou de fé. Nascemos com um prazo limitado para interpretar o mundo. Fazemos o que podemos. O legado de todos que nos precederam nesse esforço pode ajudar ou confundir, e em última instância ninguém nunca prova nada. Atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal. Dar sentido ao mundo é um ato criativo. Uma visão de mundo é uma narrativa".
(trecho de 'Cordilheira', de Daniel Galera)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

bom dia

joia de cartola sob a voz de nilze carvalho e o dispensa comentários grupo semente.

becos da vida


Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu (Chico Buarque)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Feira eleitoral

E a campanha eleitoral enfim começa a dar as caras. O tucano José Serra já começou a veicular campanhas de sua gestão em São Paulo. O PT, por sua vez, ainda não coloca sua candidata, a ministra Dilma Roussef, na telinha. Mas também já insere publicidade sobre suas ações em território paulista. Ciro Gomes, do PSB, ainda é possível candidato a governo pelo PT - mas será mesmo que o diretório estadual vai aceitar? Trata-se de peças publicitárias para começar a alertar o eleitorado paulistano para a briga maior de 2010, o cobiçado posto de Lulinha, 'he's the guy'. A disputa para abocanhar o peixe só começou. E ainda tem Marina Silva pelas beiradas.

viver a vida

"Não se esqueça de colocar como endereço desse cofre a data do seu casamento. E depois, quando estiver longe daqui, com ou sem filhos, coloque a data da sua separação. Porque isso, um dia, fatalmente vai acontecer. Lembre-se, são duas datas que uma mulher nunca esquece: a do casamento e a do divórcio"

sofisticado é ser simples

"e mesmo que falte a coragem, ou sobrem, sobrem palavras tolas/ a gente pode rir, ou até mesmo chorar"

Dói - Letra e música: Fernando Catatau (Cidadão Instigado)

coisas de um feriado

Sexta foi dia de ver Ana Cañas no Tom Jazz. Entre algumas escolhas óbvias - a exemplo de 'Metamorfose Ambulante' - e outros bons achados, a garota rebelde até que mandou bem e segurou a onda, sem repetir a gafe (e o porre) da estreia no Canecão. Depois de algumas doses de Black Label, foi a vez de seguir o caminho com Ju Vettore no Berlin e descobrir um bom trio, o Suíte, com repertório francês e boa atuação de Isabela Lages - recomendadissímo. Sábado muitas pretensões - e muita preguiça. A ideia era ir ao cinema ver 'Bastardos Inglórios', seguir para o Teatro Anchieta ver 'A Falecida', de Antunes, e então partir para a Choperia do Sesc ver Cidadão Instigado. Só saí de casa para cumprir a terceira missão. O show concorrido certamente já está entre os melhores do ano - mesmo com o 'piti' de Catatau já no bis com a equipe de som. E já que estamos na pista bora pra uma 'festa x com uma turma x' na Lapa. Domingo a dor de cabeça batia, mas já tinha um churras programado, então... Lá fomos. E manda ver cerveja, batida, carne, pão e mais música pra turma. E ainda bem que existia a segunda-feriado com cara de domingo para recuperar as energias. Depois de um almo-lanche monstruoso no Chicohamburger, morri. Hoje só amanhã!

receita infalível

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

indicação

"Trilha desmatada com mel"


reportagem de CLARA BECKER na edição de outubro 2009 da Revista PIAUÍ sobre Marinete, a depiladora de elite. Vale também ler o perfil de José Serra, pela jornalista Daniela Pinheiro. Segue abaixo uma amostra da reportagem da concorridíssima Nete.

"É aqui mesmo?", perguntou o motorista. O táxi tinha parado diante de uma birosca, ao lado de um beco, da estrada Santa Marinha, ao pé da favela Vila Parque da Cidade. Era lá mesmo. Dali para a frente, a cantora Nina Nunes teria que subir o morro a pé, que tem uma fronteira imprecisa e porosa com o bairro da Gávea, na Zona Sul carioca. Pela primeira vez a cantora galgou os degraus de cimento que serpenteiam pela Vila Parque adentro, formando um labirinto errático de ruas asfaltadas e prédios (que pagam o iptu) e vielas entupidas de barracos (irregulares e ilegais).

Nina Nunes ia à casa da Nete. Lá em cima da Vila Parque, como cá embaixo no asfalto, incluindo endereços de iptu mais caro do Rio, Nete é um nome que abre muitas portas e pernas. Fora do morro, suas freguesas, por mais famosas ou abastadas que sejam, lhe confiam segredos que não abrem nem para psicanalistas ou para revistas de celebridades.

Nete é Marinete Campos, uma depiladora de mão cheia, dona de uma agenda que é um verdadeiro quem-é-quem na selva de virilhas da alta roda carioca. Seus preços são cabeludos, mas ela cobra só a metade das clientes que se disponham a subir o morro. E Nina estava precisando de uma boa poda nos gastos. Nete, que é também manicure e pedicure, atendeu-a em seu apartamento com chão de tábuas corridas e móveis de madeira clara da rede de lojas Tok & Stok.

Pior, disse a cantora, seria passar pela experiência excruciante em mãos menos hábeis. Entre um gemido e outro, Nina contou a Nete durante a sessão que estava numa fase de aperto. Sua pequena empresa acabara de quebrar e ela juntara dívidas. A depiladora ofereceu-lhe, na hora, um empréstimo de 10 mil reais, com prazo a perder de vista e sem juros. Nina recusou a oferta. E Nete, uma mulher de 43 anos e cabelos castanhos alisados, com a aparência de quem já teve uma vida dura, e o leve excesso de peso de quem agora leva uma vida farta, honrou a fama de ser bem mais que uma prestadora de serviços supérfluos.

"Todas elas desabafam", disse a fada do mel. Durante as sessões, elas comentam, sobretudo, problemas com marido e filhos. Quando a conversa escorrega para dificuldades financeiras, Nete sempre se oferece para ajudar. "Já peguei muito dinheiro emprestado com as clientes", explicou, "mas hoje eu também empresto dinheiro para elas, inclusive para gente famosa." Seu tom, nessas ocasiões, não é o de quem fala da vida alheia, e sim de quem trata de investimentos e negócios.

E os negócios, no seu frondoso ramo, se desenvolvem na velocidade do desmatamento da Amazônia. É o que informa a oitava edição do livro Depilação: o Profissional, a Técnica e o Mercado de Trabalho, de Ateneia Feijó e Isabel Tafuri, editado pelo Senac. Ele esclarece que a depilação "já conquistou o seu lugarzinho, por menor que seja, na história da economia deste país". Tornou-se "coisa séria e valorizada". Por isso mesmo é uma arte vedada a qualquer manicure "que queira sair por aí arrancando pelos a torto e a direito". "Não, não e não", proclama o manual.

No Rio, formam-se por ano 1 200 depiladoras só no curso do Senac. Elas competem por salários de, em média, 1 500 reais por mês. Mas Nete já deixou essa mata espessa há muito tempo. Ganha quatro vezes mais que a tabela. Tem quarenta clientes de fé, que pagam 70 reais por seus serviços de manicure e pedicure. E cobra 140 reais pela depilação do corpo inteiro, tosa que inclui sobrancelha, buço, axila, perna e virilha.

Suas tarifas, às vezes, oscilam para o alto: "Quando não gosto de alguém, jogo o preço lá em cima, cobro 150 reais só a mão. Se aceitarem, eu vou, dinheiro não leva desaforo para casa." Oscilam também para baixo porque ela concede abatimento de 50% a jovens que bancam a depilação com mesada. E oscilam conforme a distância: Nete cobra 500 reais pelo "serviço completo" na atriz Ana Paula Arósio, que mora na praia de Grumari, a uma hora e meia da favela Vila Parque.

Sua caderneta tem cantoras como Preta Gil e Marina Lima, atrizes como Glória Pires e Carolina Ferraz, famílias como a Marinho. Mais longe do que ela só foram as J. Sisters, irmãs capixabas que apresentaram às nova-iorquinas o brazilian waxing, complemento natural, por assim dizer, do biquíni cavado - outro produto de exportação da moda brasileira.

O brazilian waxing, jeitinho brasileiro de conter os pelos pubianos nos limites estritos dos mais exíguos triângulos de pano, emplacou na língua inglesa como um neologismo já devidamente dicionarizado pelo Oxford. Na Wikipédia, ele conquistou um verbete minuciosamente ilustrado e que, como o assunto em si, não esconde nada. Com salões em Manhattan, pioneiros na disseminação no exterior da técnica nacional, as J. Sisters ficaram milionárias.

Nete não pode se queixar. Tem uma cobertura duplex na favela com três suítes, terraço, sala de televisão e paredes decoradas com pratos da Confraria da Boa Lembrança. Tem um Fiat Idea novinho na porta e uma empregada doméstica na cozinha. Sua geladeira é daquelas que despejam gelo no copo sem abrir a porta.

vem semana


que os orixás embalem bem a semana. lets (re)começar.

dialecto urbanus

"eu mandava bem no 'moonaia'" - recordação de um motorista, da época que tinha blackpower e se lançava na pista imitando o 'moonwalk' de Michael Jackson.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

uma vodca, por favor?

Para ir ao vipasso show do Franz Ferdinand, tive de me submeter a uma agenda maluca. Quarta-feira, como alguns sabem, é dia de fechamento. Dia de sair lá pela 1h, 2h da manhã. O show estava marcado para 23h e precisava sair no máximo 22h15. Para isso, deveria deixar tudo pronto, no Guia do Estado e no do JT. Foi uma operação de guerra. Mas consegui. O evento, porém, tão exclusivo, tinha sido mal calculado. Na casa, cabem cerca de 2.000 pessoas. E colocaram praticamente isso para um show que aconteceria em apenas um dos ambientes. Logo, metade do público tinha que ficar do lado de fora apenas ouvindo os hits e as novidades da banda de indie rock. Tentei umas duas vezes me enfiar naquela muvuca, mas meu porte físico só ajuda a ir me enfiando. Ver que é bom, nada. Então, fiquei um tempo ouvindo do lado de fora. Mas chegou uma hora que me irritei. E pra piorar notei que perdi minha comanda. "Quer saber, vou me enfurnar nessa sala vip e me afogar de vodca e energético". Foi o que eu fiz. A frase da noite foi a mesma: "Mais uma?", pelo menos umas sete vezes... Hoje estou estragadinho. E ainda tem VMB. Meu deus...

a violência a serviço do drama de andréa


O filme 'Salve Geral', que estreia sexta (2) nos cinemas, antes de tudo é um melodrama. Não é o tal filme que retrata os atentados do PCC, como se tem dito por aí. É, sobretudo, um filme de Andréa Beltrão. Depois de 'Verônica', é ela quem novamente sobressai no novo longa de Sergio Rezende (de 'Zuzu Angel'). E mostra um poder de atuação que a coloca entre as melhores atrizes do atual cenário brasileiro. A mulher escrachada de 'A Grande Família' ou de 'As Centenárias' se sai com igual maestria em papeis dramáticos. Aqui, em 'Salve Geral', o filme escolhido pela Secretaria do Audiovisual para tentar uma vaga no Oscar, Andréa Beltrão é Lúcia, uma viúva professora de piano que tenta a todo custo tirar o filho da prisão, acusado de assassinato. Em meio a luta, Lúcia conhece Ruiva (Denise Weinberg em ótima atuação). Ruiva é advogada de um dos manda-chuva do PCC. Sem dinheiro, Lúcia alia-se a Ruiva e se envolve com o crime - até romanticamente. E onde entra os atentados que paralisaram São Paulo em maio de 2006? O caso aparece na reta final da trama, em cerca de 25% do filme. O "11 de setembro" dos paulistanos aparece no trânsito caótico, na cidade vazia ainda no início da noite e nos noticiários. Revela ainda o acordo realizado entre secretário de governo e bandidos para interromper o estado de sítio que a facção criminosa impôs. É um filme de qualidade, que pode provocar dúvida em quem já está saturado da onda de cinema violento - Cidade de Deus, Carandiru, Tropa de Elite e Última Parada 174. Mas vale a ressaca. Andréa Beltrão é um excelente engov.